Nunca se falou tanto de um modelo atual de sociedade: conectada tecnológica e digitalmente, com acesso instantâneo e online a informações multiplataformas, serviços virtuais velozes e customizados, inteligência artificial modulada em data centers futuristas.
Um sem-número de organizações e consumidores tentam acompanhar esse modelo que oferece oportunidades a muitos e temor a outros tantos. O cidadão médio conversa com um atendente e, talvez, nem desconfie que é um robô. O leitor desavisado lê uma notícia sem ter ciência que foi elaborada por IA. O pequeno investidor compra criptomoeda confiante nas prometidas taxas de crescimento, afinal tudo que é novidade tecnológica também é oportunidade. São pessoas "comuns" na incomum e veloz esteira dos atuais recursos digitais oferecidos pelas organizações do século XXI, que tornam rapidamente obsoletos produtos ainda em pleno consumo e pedem passagem para emplacar suas ofertas tentadoras, muitas úteis e outras, nem tanto.
A conveniência trazida por tantas novidades e soluções ganha velocidade e, por vezes, atropela o ritmo e direcionamento dos tradicionais valores culturais dessa mesma sociedade. Os números mostram que os paradigmas da conectividade, vida digital, sociedade em rede, compras online, sintonia com as mídias sociais não se incorporaram plenamente ao dia-dia de milhões e, mesmo aqueles que desfrutam de uma vivência digital, as referências culturais ainda pesam quando mergulham nos aplicativos, serviços virtuais, dispositivos digitais e sistemas com alta tecnologia embarcada.
As indústrias e corporações de tecnologia e inovação sabem que, até mesmo para atender e satisfazer a Geração Z, precisam fazer uso de mecanismos de transição aderente à cultura social tradicional, até porque os sistemas atuais apresentam configurações abstratas e minimalistas que dificultam traduzi-los e, assim, possibilitar boa interação com os usuários.
O formato da buzina de antigamente - aquela usada pelo pipoqueiro, sorveteiro em seu carrinho na rua, ou em calhambeques que o bisavô dirigia - é utilizado em placas de trânsito até hoje (Placa R-20: Proibido acionar buzinar ou sinal sonoro).

Igualmente, usam-se os formatos de sino e autofalantes tradicionais em telas digitais para representar alertas sonoros, áudio e volume de som: como então representar os enfadonhos, desinteressantes e minúsculos chips que, verdadeiramente, geram os sons desses dispositivos?

A propaganda de instituições financeiras e serviços de crediário expõem volumosas cédulas em papel, embora cartões e sistemas digitais de compra reinem atualmente. Os bancos tentam seduzir o cliente a investir em criptomoeda recorrendo a irreais imagens de moedas cravadas com B ou outros símbolos: já pensou termos um cofrinho de porquinho cheio dessas moedas?

É comum em conteúdos publicitários a inserção do número de telefone; como também é frequente colocar junto a ele uma silhueta simpática, amigável, carinhosa de telefone ou do fone típico dos anos 1950, em vez de um estressante aparelho celular.

Há diversos conteúdos promocionais em mídias sociais que indicam um endereço de e-mail para contato direto e, para evidenciar esse meio, é comum recorrer à figura de um envelope de carta, aquele mesmo em papel usado há décadas, em que o usuário passava a língua na borda para lacrar; a mesma língua que também servia para lamber o verso do selo para grudá-lo no envelope: ainda bem que, para cada e-mail, não precisamos mais fazer esse ritual!

De papel, mas parecido com um aviãozinho, é a marca adotada pelo Telegram, que não trabalha com telegramas, mas adota o nome para inspirar a rede social em seu serviço de mensagens.

Não que tais objetos ícones prevaleçam na atual comunicação, mas fazem parte de um código visual ainda utilizado hoje, caso do aparelho de TV e rádio estilizados com uma anteninha no topo como ícone na tela do celular.

Em pleno ciclo do cinema digital e seus sistemas imersivos e câmeras 8K, há ícones no screen do smartfone e peças promocionais de filmes ilustrados com películas, daquelas de celuloide, rolo de filme acoplado no projetor e claquete de madeira, uma remissão ao cinema raiz.

Para indicar a captura de som, nas telas de dispositivos digitais, é comum aparecer o desenho de um microfone tradicional, daqueles grandes, pesados e onipresentes, típico dos que ficavam sobre as mesas dos estúdios antigos de rádio. Os de hoje são pequenos, imperceptíveis, pouco sugestivos para o teleouvinte, o que tem feito os programas de podcast atuais a recolocar o emblemático microfone de mesa a fim de dar identidade e impacto na transmissão multiplataforma audiovisual. O recurso de IA do Google oferece a opção de voz com o quase centenário microfone.

A corrente de metal com seus elos em retângulo com cantos arredondados ainda inspira aqueles que precisam comunicar uma conexão virtual ou conexão interrompida (como seriam os elos virtuais?). A comunicação da sociedade de informação não consegue, por vezes, sinalizar melhor recursos de segurança, restrição de acesso ou necessidade de usar senha sem mostrar o quase centenário cadeado ou uma chave dentada, algumas semelhantes às usadas em portões da Idade Média.

O símbolo de arquivar documentos, usado por muitos softwares de edição, remonta àquelas pastas suspensas de papelão, etiquetadas no topo, dispostas em gavetas de armários de aço, enquanto o ícone de salvar nesses softwares não superou o extinto disquete de plástico 3 ½. Ali também está o clássico binóculo e a lupa de ampliação para sinalizar, dentre os comandos da página inicial, o botão de "localizar" uma palavra no documento digital, além da lata de tinta para indicar aplicação de cores, semelhante àquele galão que se usa para pintar paredes, janelas e portões.




A comunicação intuitiva - simples, com símbolos referenciais - tem sido usada nos sistemas e dispositivos digitais. As organizações deparam-se com a oferta minimalista na atualidade, muitas vezes desempenhada por chips ocultos, minúsculos, desinteressantes, inadequados para uma comunicação efetiva. A fim de atender a Geração Z (e todas), tais organizações se socorrem de símbolos ou objetos-ícones vintage ainda presentes na cultura social.
Por quanto tempo tais ícones vintage serão utilizados? Quando efetivamente serão aposentados? Quais ideias poderão gerar signos referenciais verdadeiros? Tempo e ideias que, em pleno ano de 2026, ainda são representados pela ampulheta medieval e a extinta lâmpada de bulbo.